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Esporte
03/07/2026 18h49

Como Tubarão reagiu aos cinco títulos do Brasil? Os jornais contam uma história inesperada

O Arquivo Público e Histórico Amadio Vettoretti guarda a história de como era a mobilização da cidade nos anos em que o Brasil ganhou seus cinco títulos. Ou de como não era.
Como Tubarão reagiu aos cinco títulos do Brasil? Os jornais contam uma história inesperada

As fotos estão no final da matéria!
 

Se tem uma coisa deliciosa no fazer Jornalismo é sair às ruas com mil ideias e ter todas fatiadas em pequenas migalhas de nada. O bom é que quase sempre volta-se com alguma coisa melhor do que a intenção original. Hoje, amigos leitores, eu queria mostrar a mobilização da Cidade Azul em cada uma das Copas em que a Seleção saiu vitoriosa. A torcida, o povo, o que diziam os jornais! Me ferrei, amigos… E amigas. 

 

No Arquivo Público e Histórico Amadio Vettoretti estão encadernados os exemplares de A Imprensa, Imprensa do Sul e Diário do Sul. Décadas prensadas em papel jornal amarelado, com aquele cheiro específico — poeira, cola, umidade. Dou uma fungada, respiro a história e as vias aéreas ameaçam fechar. Alarme falso. Ali, diante de mim, estavam organizados os cadernos por mês e ano; agradecimento especial à servidora Márcia Ingracio, que sempre nos atende com gentileza e atenção. Ela deixou marcadores nos cadernos onde havia algum registro sobre as Copas nos periódicos de Tubarão.

 

Nas primeiras folheadas, percebi a pauta caminhando para longe do meu plano. “Não tem nada aqui, parece que nem estava tendo Copa do Mundo naquele ano”, disse à Márcia, me referindo a 1958. “Pois é, 1962 e 1970 também vai ser meio parecido, viu? No tetra e em 2002 é que os registros pela cidade são mais robustos”, explicou. Foi aí que, nas páginas seguintes, tudo se explicou. Nos primeiras conquistas mundiais da Seleção, o coração do torcedor tubaronense estava rendido ao Hercílio Luz, que conquistaria seu primeiro Campeonato Catarinense.

Assista aqui:
 

O rei era o Leão

Enquanto a Seleção Brasileira arrumava as malas rumo ao exterior e jogava amistosos contra a Fiorentina e a Inter de Milão antes da Copa do Mundo de 1958, as atenções locais estavam voltadas para o Hercílio Luz FC. No dia oito de junho, o Brasil estreou na Suécia contra a Áustria. E o Leão do Sul decidiu o Campeonato Catarinense, vencendo o Carlos Renaux. O Leão perdeu o primeiro jogo por 3 a 1, venceu o segundo por 4 a 2, e conquistou o título na terceira partida, por 2 a 0. 

 

“Magnífica a recepção aos atletas do Hercílio Luz”, gritava uma manchete do A Imprensa. O povo se reuniu na Praça do Chafariz, aguardando com expectativa a chegada dos atletas, que aconteceria às sete da noite. “Prédios e marquises estavam apinhados de gente. Na praça estava armado um palanque. Após desfile em carros abertos pela cidade, encaminharam-se os atletas para a rua Lauro Muller, sendo então recebidos por uma ovação nunca dantes verificada em nossa cidade”, registrava a matéria.

 

O anúncio de que a Seleção estaria na final contra a Suécia apareceu espremidinho entre notícias sobre os times locais; no dia 5 de julho, na capa, A Imprensa Esportiva publicava a campanha da Seleção sob o título “Brasil Campeão do Mundo”. A coroação de Pelé na Suécia parecia competir diretamente nas conversas de bar com a coroação da senhorita Célia Santos, eleita Rainha do Esporte Tubaronense nos salões da Sociedade Recreativa Sul Catarinense. O orgulho era, primeiro, hercilista para então ser brasileiro.

 

Para o tubaronense de 1958, o Brasil ser campeão do mundo era uma alegria distante, mediada por rádio, acontecendo em outro continente, disputada por gente que a cidade nunca tinha visto jogar ao vivo. Pelé, Garrincha e Didi eram abstrações gloriosas. O disciplinado zagueiro Dedé e o valoroso Giovani eram vizinhos.
 

Pequenas notinhas escondidas

Eu estava começando a ficar com medo de ser um revisionista da História. Na verdade, todos temos um pouco a ideia de que sempre que o Brasil ganhou uma Copa, a cidade parava. Em 1962, Tubarão ainda focava no Hercílio Luz e no Ferroviário, trazendo tímidas (para ser bonzinho) notinhas sobre a Seleção nas páginas de seus jornais. Dois de junho de 1962. Manchete? O Clássico Ferro-Luz monopoliza as atenções para o Estádio Aníbal Costa. Não é preciso nem explicar…

 

Enquanto o Cine Vitória e o São José exibia Vampiro do Sexo, Conflito Intímo e Beijo que não se esquece, presos à solta faziam balbúrdia no Passo do Gado, os bancários da cidade pediam aumento e o Colégio Dehon fazia um convênio com o Estado. Além disso, Willy Zumblick assumia a direção do Rotary. Ah, e o Brasil conquistava o bicampeonato mundial. Lá no Chile, sabe… Um cabeçalho anunciava isso, com certo enfado. “E a comissão técnica tinha razão…”. Que coisa, não?
 

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1970. Agora vai?
 

Não, ainda não, amigo leitor. A Copa de 1970 foi a primeira a ser televisionada para o Brasil. Então se a gente não tinha tanto registro em jornais até agora… Eu sei, talvez você esteja decepcionado. Mas tenho novidades: os filmes em cartaz estavam menos tarados: Fugitivos da Rússia e O Direito de Nascer eram as películas da vez. A Ford modificava o seu Corcel e um professor publicava uma coluna reclamando da quantidade de pessoas em situação de rua na cidade Azul. O Hercílio Luz e o Ferroviário continuavam em voga. E o mais impressionante: o semanário Imprensa do Sul não cita a final entre Brasil e Itália, nem no dia 20, um dia antes da final, nem uma semana depois, com a vitória já conquistada. Pode ser que alguma página tenha se perdido? Sim, mas a capa está lá… Sem menção alguma.

 

Dez mil comemorando

Vinte e quatro anos chupando o dedo. Acho que quando a gente se acostuma com a vitória ela vai ficando meio blasé. Igual comer pudim todo dia; enjoa fácil. Mesmo que eu seja um apaixonado pela sobremesa. A impressão é de que Tubarão e o país se acostumaram àquela rotina da vitória e, de tanto ganhar, os títulos nem rendiam mais notícias. Aquela velha aula de Jornalismo: um cachorro mordendo um homem não é notícia. Porque um cachorro faz isso mesmo. Agora se um homem morder um cachorro…

 

E o Brasil ganhar a Copa tinha virado o cachorro mordendo o homem. Até que um hiato de mais de duas décadas deixou todo mundo meio desesperado. E veio Romário com a Seleção de 94 para quebrar o tabu, na final contra a Itália nos EUA. Nos pênaltis.

 

A comemoração em Tubarão foi apoteótica e registrada nos jornais. Cerca de dez mil pessoas foram para o Centro da cidade comemorar, segundo a Polícia Militar. A comemoração passou de uma da manhã, mas não houve nenhum boletim de ocorrência registrado. Gente feliz, de fato, não enche o saco.
 

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A copa da madrugada
 

Em 2002, Tubarão madrugou. “Café da manhã com gosto de final”, registrava uma manchete, fazendo referência à semifinal contra a Inglaterra, que aconteceu às três e meia da manhã. A Copa era na Coreia do Sul e Japão e o Brasil jogou duas vezes neste horário ingrato, além duma outra partida às seis da manhã. Em São Martinho, o casal Helmut Stortz e Marly Helena, descendentes de alemães, estavam com o coração dividido. Ele torceu para a Alemanha; ela, para o Brasil. O resultado a gente conhece.

 

Naquele ano, a safra da tainha decepcionou os pescadores; era 10 de junho e nada das queridas darem as caras na região. O padre Raimundo Ghizoni havia ido à Itália junto de um grupo de fiéis para a canonização da Madre Paulina. E mais de oito mil pessoas assistiam Homem-Aranha, de Sam Raimi, nos cinemas. E a torcida parecia confiante, com os jornais já avisando: se der Brasil, a comemoração em Tubarão é na avenida. Inclusive, o povo começou já no sábado com a festa, com foguetes e buzinas à toda. 

 

E deu no que deu: o 2 a 0 da Seleção garantiu que, em alguns postos da cidade, como o Fera e o Canário, a concentração só acabasse depois das dez da noite; novamente, nenhuma ocorrência ofuscando o brilho da conquista. A fila de carros na avenida Marcolino Cabral chegou a mais de quatro quilômetros, nos dois sentidos. Ninguém se importava com o congestionamento: o Brasil era penta. Será que, passados outros vinte e quatro anos, vamos lavar a alma com outra festa dessas no dia dezenove? Aguardo. Ansiosamente.
 


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