
As fotos estão no final da matéria!
Se tem uma coisa deliciosa no fazer Jornalismo é sair às ruas com mil ideias e ter todas fatiadas em pequenas migalhas de nada. O bom é que quase sempre volta-se com alguma coisa melhor do que a intenção original. Hoje, amigos leitores, eu queria mostrar a mobilização da Cidade Azul em cada uma das Copas em que a Seleção saiu vitoriosa. A torcida, o povo, o que diziam os jornais! Me ferrei, amigos… E amigas.
No Arquivo Público e Histórico Amadio Vettoretti estão encadernados os exemplares de A Imprensa, Imprensa do Sul e Diário do Sul. Décadas prensadas em papel jornal amarelado, com aquele cheiro específico — poeira, cola, umidade. Dou uma fungada, respiro a história e as vias aéreas ameaçam fechar. Alarme falso. Ali, diante de mim, estavam organizados os cadernos por mês e ano; agradecimento especial à servidora Márcia Ingracio, que sempre nos atende com gentileza e atenção. Ela deixou marcadores nos cadernos onde havia algum registro sobre as Copas nos periódicos de Tubarão.
Nas primeiras folheadas, percebi a pauta caminhando para longe do meu plano. “Não tem nada aqui, parece que nem estava tendo Copa do Mundo naquele ano”, disse à Márcia, me referindo a 1958. “Pois é, 1962 e 1970 também vai ser meio parecido, viu? No tetra e em 2002 é que os registros pela cidade são mais robustos”, explicou. Foi aí que, nas páginas seguintes, tudo se explicou. Nos primeiras conquistas mundiais da Seleção, o coração do torcedor tubaronense estava rendido ao Hercílio Luz, que conquistaria seu primeiro Campeonato Catarinense.
Assista aqui:
O rei era o Leão
Enquanto a Seleção Brasileira arrumava as malas rumo ao exterior e jogava amistosos contra a Fiorentina e a Inter de Milão antes da Copa do Mundo de 1958, as atenções locais estavam voltadas para o Hercílio Luz FC. No dia oito de junho, o Brasil estreou na Suécia contra a Áustria. E o Leão do Sul decidiu o Campeonato Catarinense, vencendo o Carlos Renaux. O Leão perdeu o primeiro jogo por 3 a 1, venceu o segundo por 4 a 2, e conquistou o título na terceira partida, por 2 a 0.
“Magnífica a recepção aos atletas do Hercílio Luz”, gritava uma manchete do A Imprensa. O povo se reuniu na Praça do Chafariz, aguardando com expectativa a chegada dos atletas, que aconteceria às sete da noite. “Prédios e marquises estavam apinhados de gente. Na praça estava armado um palanque. Após desfile em carros abertos pela cidade, encaminharam-se os atletas para a rua Lauro Muller, sendo então recebidos por uma ovação nunca dantes verificada em nossa cidade”, registrava a matéria.
O anúncio de que a Seleção estaria na final contra a Suécia apareceu espremidinho entre notícias sobre os times locais; no dia 5 de julho, na capa, A Imprensa Esportiva publicava a campanha da Seleção sob o título “Brasil Campeão do Mundo”. A coroação de Pelé na Suécia parecia competir diretamente nas conversas de bar com a coroação da senhorita Célia Santos, eleita Rainha do Esporte Tubaronense nos salões da Sociedade Recreativa Sul Catarinense. O orgulho era, primeiro, hercilista para então ser brasileiro.
Para o tubaronense de 1958, o Brasil ser campeão do mundo era uma alegria distante, mediada por rádio, acontecendo em outro continente, disputada por gente que a cidade nunca tinha visto jogar ao vivo. Pelé, Garrincha e Didi eram abstrações gloriosas. O disciplinado zagueiro Dedé e o valoroso Giovani eram vizinhos.
Pequenas notinhas escondidas
Eu estava começando a ficar com medo de ser um revisionista da História. Na verdade, todos temos um pouco a ideia de que sempre que o Brasil ganhou uma Copa, a cidade parava. Em 1962, Tubarão ainda focava no Hercílio Luz e no Ferroviário, trazendo tímidas (para ser bonzinho) notinhas sobre a Seleção nas páginas de seus jornais. Dois de junho de 1962. Manchete? O Clássico Ferro-Luz monopoliza as atenções para o Estádio Aníbal Costa. Não é preciso nem explicar…
Enquanto o Cine Vitória e o São José exibia Vampiro do Sexo, Conflito Intímo e Beijo que não se esquece, presos à solta faziam balbúrdia no Passo do Gado, os bancários da cidade pediam aumento e o Colégio Dehon fazia um convênio com o Estado. Além disso, Willy Zumblick assumia a direção do Rotary. Ah, e o Brasil conquistava o bicampeonato mundial. Lá no Chile, sabe… Um cabeçalho anunciava isso, com certo enfado. “E a comissão técnica tinha razão…”. Que coisa, não?
1970. Agora vai?
Não, ainda não, amigo leitor. A Copa de 1970 foi a primeira a ser televisionada para o Brasil. Então se a gente não tinha tanto registro em jornais até agora… Eu sei, talvez você esteja decepcionado. Mas tenho novidades: os filmes em cartaz estavam menos tarados: Fugitivos da Rússia e O Direito de Nascer eram as películas da vez. A Ford modificava o seu Corcel e um professor publicava uma coluna reclamando da quantidade de pessoas em situação de rua na cidade Azul. O Hercílio Luz e o Ferroviário continuavam em voga. E o mais impressionante: o semanário Imprensa do Sul não cita a final entre Brasil e Itália, nem no dia 20, um dia antes da final, nem uma semana depois, com a vitória já conquistada. Pode ser que alguma página tenha se perdido? Sim, mas a capa está lá… Sem menção alguma.
Dez mil comemorando
Vinte e quatro anos chupando o dedo. Acho que quando a gente se acostuma com a vitória ela vai ficando meio blasé. Igual comer pudim todo dia; enjoa fácil. Mesmo que eu seja um apaixonado pela sobremesa. A impressão é de que Tubarão e o país se acostumaram àquela rotina da vitória e, de tanto ganhar, os títulos nem rendiam mais notícias. Aquela velha aula de Jornalismo: um cachorro mordendo um homem não é notícia. Porque um cachorro faz isso mesmo. Agora se um homem morder um cachorro…
E o Brasil ganhar a Copa tinha virado o cachorro mordendo o homem. Até que um hiato de mais de duas décadas deixou todo mundo meio desesperado. E veio Romário com a Seleção de 94 para quebrar o tabu, na final contra a Itália nos EUA. Nos pênaltis.
A comemoração em Tubarão foi apoteótica e registrada nos jornais. Cerca de dez mil pessoas foram para o Centro da cidade comemorar, segundo a Polícia Militar. A comemoração passou de uma da manhã, mas não houve nenhum boletim de ocorrência registrado. Gente feliz, de fato, não enche o saco.
A copa da madrugada
Em 2002, Tubarão madrugou. “Café da manhã com gosto de final”, registrava uma manchete, fazendo referência à semifinal contra a Inglaterra, que aconteceu às três e meia da manhã. A Copa era na Coreia do Sul e Japão e o Brasil jogou duas vezes neste horário ingrato, além duma outra partida às seis da manhã. Em São Martinho, o casal Helmut Stortz e Marly Helena, descendentes de alemães, estavam com o coração dividido. Ele torceu para a Alemanha; ela, para o Brasil. O resultado a gente conhece.
Naquele ano, a safra da tainha decepcionou os pescadores; era 10 de junho e nada das queridas darem as caras na região. O padre Raimundo Ghizoni havia ido à Itália junto de um grupo de fiéis para a canonização da Madre Paulina. E mais de oito mil pessoas assistiam Homem-Aranha, de Sam Raimi, nos cinemas. E a torcida parecia confiante, com os jornais já avisando: se der Brasil, a comemoração em Tubarão é na avenida. Inclusive, o povo começou já no sábado com a festa, com foguetes e buzinas à toda.
E deu no que deu: o 2 a 0 da Seleção garantiu que, em alguns postos da cidade, como o Fera e o Canário, a concentração só acabasse depois das dez da noite; novamente, nenhuma ocorrência ofuscando o brilho da conquista. A fila de carros na avenida Marcolino Cabral chegou a mais de quatro quilômetros, nos dois sentidos. Ninguém se importava com o congestionamento: o Brasil era penta. Será que, passados outros vinte e quatro anos, vamos lavar a alma com outra festa dessas no dia dezenove? Aguardo. Ansiosamente.
