
Trocas de mensagens feitas pela médica Juliana Brasil Santos durante o atendimento ao menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, mostram como o caso evoluiu antes da morte da criança em um hospital particular da Zona Centro-Sul de Manaus. Os registros, enviados no sábado (22), revelam que a profissional pediu ajuda a um colega e reconheceu por escrito ter prescrito adrenalina intravenosa — procedimento contraindicado para o quadro apresentado pelo paciente. “Eu errei a prescrição”, escreveu.
O conteúdo das conversas, agora anexado ao prontuário e aos depoimentos da família e da técnica de enfermagem, deve contribuir para esclarecer a sequência de acontecimentos que levou à morte da criança, confirmada no domingo (23). O caso segue sob investigação da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM). O delegado responsável solicitou a prisão preventiva da médica, mas o pedido foi negado pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM).
Troca de mensagens e admissão do erro
As capturas de tela divulgadas nesta sexta-feira mostram que a primeira mensagem de Juliana buscando orientação foi enviada às 14h41. Um minuto depois, ela relatou ter prescrito inalação com adrenalina, mas afirmou que a equipe teria aplicado o medicamento por via endovenosa. Em seguida, diante do agravamento do quadro, ela passa a assumir a responsabilidade pelo que chamou de erro de prescrição.
Às 14h43, após ser informada de que o paciente havia desmaiado, a médica voltou a escrever: “O que eu administro? Pelo amor de Deus. Eu errei a prescrição”. No minuto seguinte, novamente em estado de desespero, reforçou a falha e pediu apoio à equipe da UTI: “Me ajuda. Eu que errei na prescrição. Pede pra alguém descer”.
Orientações à distância
Enquanto Benício apresentava sinais graves de reação à adrenalina intravenosa — uso considerado de alto risco e incompatível com casos de crupe (laringite) —, o colega fornecia orientações básicas de suporte, como monitorização cardíaca, oxigênio e expansão volêmica. A médica enviou fotos do monitor cardíaco, que mostrava taquicardia intensa, e descreveu a piora da criança: “Ficou todo amarelo”, “Tá pálido”, “Não tá respirando”.
Conversas reforçam versão da enfermagem
As mensagens também corroboram o depoimento da técnica de enfermagem Raíza Bentes, que afirmou ter seguido exatamente o que estava na prescrição médica, apesar de ter estranhado a indicação da via intravenosa. “A gente não pode fazer nada que não tenha na prescrição médica”, disse ela em entrevista coletiva.
As conversas serão analisadas pela PC-AM como parte do inquérito que apura responsabilidades no atendimento e na morte do menino.
