
Há mais de uma década, a literatura tem sido ferramenta de transformação social nas mãos do escritor e produtor cultural Preto Lauffer. Desde 2015, quando criou o projeto Poesia que Transborda, Transforma, em Laguna (SC), ele vem levando palavras, escuta e expressão para espaços onde, historicamente, o acesso à cultura é limitado: comunidades periféricas, alas psiquiátricas, penitenciárias, bibliotecas públicas e outros territórios marcados pela vulnerabilidade.
Em 2025, o projeto alcançou mais um marco importante. Por meio de uma parceria com o SESC, Lauffer chegou a uma das comunidades com maiores índices de vulnerabilidade social de Uberlândia (MG). Foi nesse território que nasceu o primeiro livro do projeto, uma obra construída coletivamente, reunindo poemas autorais de jovens estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Lourdes de Carvalho.
A publicação surge em um contexto desafiador. O Brasil perdeu cerca de 5 milhões de leitores entre 2019 e 2024, segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro. Entre os jovens, o cenário também preocupa: apenas cerca de 10% dos estudantes de 15 a 16 anos enfrentaram leituras mais longas, enquanto dois terços não ultrapassaram 10 páginas. Ainda assim, 67% afirmam gostar de ler, revelando um interesse que existe, mas que muitas vezes não encontra estímulo ou identificação.
A desigualdade agrava ainda mais esse quadro. Jovens de baixa renda têm até 55% menos chance de dominar habilidades básicas de leitura, e quase metade dos estudantes mais pobres está abaixo do nível mínimo esperado, evidenciando um abismo educacional que atravessa o país.
É nesse cenário que o livro Poesia que Transborda, Transforma — edição E.E. Lourdes de Carvalho, Uberlândia (MG) ganha ainda mais relevância. Mais do que páginas encadernadas, a obra representa um processo coletivo de escuta, criação e reconhecimento. Durante as oficinas, os estudantes foram convidados a escrever sobre suas próprias vivências, transformando experiências em poesia e reafirmando sua capacidade de narrar o mundo a partir de suas próprias perspectivas.
O projeto rompe com a ideia de que literatura é privilégio. Aqui, ela é ferramenta e direito. Cada jovem que escreve neste livro não apenas aprende a ler, ele passa a reescrever sua própria história.
A obra foi viabilizada com financiamento da ADUFU (Associação dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia), por meio da Diretoria Executiva da Gestão Florescer nas Lutas, e conta com o apoio da Editora Juriti e do Instituto Lagunense do Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Ambiental Jerônimo Coelho.
O professor da unidade escolar, Gabriel Pimentel, também destaca o impacto da experiência: “Como professor, fui transformado pela vivência. A oficina confirmou a lição de Paulo Freire e Bell Hooks: educar é ir além da transmissão de informações, é construir com os estudantes processos de crescimento humano e intelectual. Vi jovens silenciados se tornarem voz, vi poesia brotar da dor e do afeto, mostrando que educar é também se deixar educar pelo outro. Ali, a palavra se fez resistência, esperança e transformação.
A fala do educador evidencia o que muitas estatísticas não conseguem mensurar: o impacto profundo da educação quando ela é atravessada pela escuta, pelo afeto e pela construção coletiva. Mais do que uma oficina, o que se construiu foi um território de confiança, onde a literatura deixou de ser obrigação e passou a ser possibilidade.
Ao longo de sua trajetória, o Poesia que Transborda, Transforma já passou por mais de 30 municípios, em seis estados brasileiros, consolidando-se como uma iniciativa que democratiza o acesso à literatura e promove a formação cultural em territórios diversos
Segundo Preto Lauffer, é impossível falar deste livro sem se atravessar por ele. Porque o que está impresso nessas páginas não é só poesia, é vida em estado bruto. É a potência de uma juventude periférica que, mesmo diante de todas as ausências, escolhe criar, sonhar e existir com intensidade
É sobre ver esses jovens ocupando um lugar que historicamente lhes foi negado: o de autores de suas próprias narrativas. Eu falo disso com emoção porque sei o quanto esse protagonismo muda destinos.
Quando um jovem periférico entende que sua voz importa, que sua história merece ser contada e que sua palavra tem valor, a gente não está só formando leitores, a gente está formando futuros.
