
A chegada do primeiro filho mudou completamente os planos profissionais de Anderson da Cruz, de Santa Catarina. Depois de receber o diagnóstico de autismo severo de Joaquim, ele decidiu abandonar uma carreira de 15 anos no mercado financeiro e ingressar no curso de fonoaudiologia. A mudança fez com que passasse a ganhar cerca de 25% do salário que recebia anteriormente, mas, segundo ele, trouxe um novo sentido para a vida.
A decisão surgiu da necessidade de compreender melhor as dificuldades enfrentadas pelo filho e encontrar maneiras de contribuir para o desenvolvimento da comunicação e da autonomia do menino. Anderson queria levar para dentro de casa conhecimentos que pudessem ser aplicados no acompanhamento de Joaquim.
“Quem sabe se eu cursar fonoaudiologia, sair do mercado financeiro e for fazer outra coisa que vá ajudar o meu filho a desenvolver a fala, a trazer conhecimento em prol dele”, contou.
Joaquim era um bebê sorridente e tranquilo nos primeiros meses de vida. Por volta dos seis meses, porém, os pais começaram a perceber comportamentos diferentes. Ele não engatinhou, começou a andar aos sete meses e apresentava movimentos repetitivos. Aos 12 meses, deixou de interagir como antes e passou a permanecer longos períodos girando objetos.
A avaliação de uma neurologista confirmou o diagnóstico. Segundo Anderson, a médica classificou o quadro como autismo severo e alertou a família sobre a necessidade de acompanhamento. “Nosso chão caiu”, relembrou o pai.
A partir daquele momento, a rotina da família mudou. Anderson passou a enxergar a própria experiência profissional de outra maneira e decidiu buscar uma formação que estivesse diretamente relacionada às necessidades do filho.
Apesar dos desafios, ele afirma que Joaquim é uma criança alegre, carinhosa e companheira. Para o pai, os avanços do menino passaram a ter um valor maior do que qualquer resultado que pudesse alcançar profissionalmente.
“Hoje eu ganho 1/4 do que eu ganhava antes do nascimento do Joaquim. Eu digo que sou muito mais feliz no propósito que hoje eu tenho com a vida”, afirmou.
Dedicação também faz parte da rotina de outros pais
A experiência de Anderson é um dos exemplos das mudanças enfrentadas por famílias de crianças atípicas. Em muitos casos, o cuidado exige adaptações na rotina, na vida profissional e na própria estrutura familiar.
Foi o que aconteceu com José Roberto de Souza. A relação dele com Ágatha começou quando a menina tinha cerca de nove anos. Com o passar do tempo, a convivência se transformou em um vínculo de pai e filha.
Anos depois, após a separação da mãe e o abandono da adolescente, Ágatha procurou a casa de José. Diante da situação, ele decidiu assumir integralmente a criação dela.
José passou a cuidar sozinho da jovem e precisou adaptar a rotina para atender às necessidades dela. Embora tenha idade física de adolescente, Ágatha mantém comportamentos e características de uma criança, o que faz com que necessite de acompanhamento constante.
“Eu não tinha ideia do que era cuidar de uma criança atípica sozinho, mas fui me adaptando e depois passei a ter uma rotina com ela. É muito difícil criar sozinho”, relatou.
Para José, a experiência também transformou sua compreensão sobre a paternidade. Ele afirma que aprendeu a valorizar a presença, o cuidado e o respeito às características individuais de cada filho.
“O principal que aprendi foi o amor. Amar uma criança do jeito que ela é é fundamental. E tem coisas que ela me ensina às vezes. Ser pai é estar presente, amar e nunca desistir”, afirmou.
As histórias de Anderson e José mostram diferentes formas de exercer a paternidade diante das necessidades específicas de crianças e adolescentes atípicos. Em comum, os dois relatam que o cuidado diário trouxe mudanças profundas para suas vidas e uma nova percepção sobre o significado de ser pai.
