
Não foi uma decisão de última hora, tampouco um movimento articulado pela família, embora parte dos comentários que circularam nos bastidores da política catarinense tenha sugerido o contrário. "Nunca existiu a possibilidade de não ser candidata", afirma a advogada Leatrice Bez, filha do deputado federal Edinho Bez, ao explicar o que a levou a disputar uma vaga de deputada estadual pelo MDB. Segundo ela, a decisão é antiga e partiu dela própria. "Fui eu que fui buscar, eu que fui atrás", afirma, negando que a candidatura tenha sido articulada pelo pai.
Especialista em direito empresarial e compliance, Leatrice conta que sempre esteve próxima da vida pública. Desde criança, acompanhou a trajetória política do pai e, há anos, atua como responsável jurídica de suas campanhas. Nesse período, estabeleceu consigo mesma uma condição para eventualmente entrar na política: "O dia que você não estiver como candidato, eu vou analisar o cenário e, se necessário for, eu coloco o meu nome à disposição", relembra. Com Edinho fora da disputa nesta eleição, decidiu lançar o próprio nome, diante de um cenário que considera carente de presença política para além do discurso nas redes sociais.
Desde janeiro, segundo relata, tem percorrido municípios da região para ouvir diretamente as demandas da população. A rotina, afirma, envolve sair de casa antes do amanhecer e retornar à noite, em uma tentativa de conhecer de perto as necessidades de quem vive o cotidiano, distante dos gabinetes.
Questionada sobre sua principal bandeira, a candidata evitou a lista tradicional de segurança, saúde e educação que costuma aparecer nos discursos eleitorais. "A minha bandeira é a representatividad da região", resume. Na prática, isso significa, segundo ela, utilizar um eventual mandato para revisar legislações defasadas, viabilizar emendas parlamentares e orientar entidades sobre como acessar recursos públicos. Para isso, defende a formação de uma equipe qualificada para fazer o levantamento das demandas e articular as soluções. "Porque uma andorinha só não faz verão", afirma.
Como exemplo, cita as mais de 12 APAEs que já visitou na região, entre elas a de Tubarão. Segundo Leatrice, a entidade apresentou uma demanda específica envolvendo alteração legislativa, cuja viabilidade jurídica está sendo analisada por ela.
Leatrice defende o resgate da autoridade dos professores em sala de aula e dos policiais durante o exercício da função. "Nós precisamos resgatar a autoridade dos professores em sala de aula e resgatar a autoridade dos policiais", afirma, diante do que classifica como uma escalada de desrespeito envolvendo alunos e famílias.
Sobre o feminicídio, tema que aparece tanto em seu discurso quanto em sua experiência pessoal, Leatrice afirma que evita associar a discussão a rótulos ideológicos. Diz rejeitar tanto discursos que considera ultrapassados quanto o uso, segundo ela, inadequado de instrumentos de proteção, como botão do pânico e tornozeleira eletrônica, em situações nas quais não haveria violência praticada pelo homem denunciado. "A gente precisa separar o joio do trigo", resume.
Para a candidata, é necessário punir quem efetivamente comete crimes e, ao mesmo tempo, preservar a finalidade dos mecanismos criados para proteger vítimas de violência.
Ao ser questionada sobre as diferenças que enfrenta por ser mulher em uma trajetória política que acompanhou de perto ao lado do pai, a advogada reconheceu que já passou por situações desse tipo, embora prefira não fazer da questão o centro de sua campanha. Ela relatou episódios de assédio disfarçados de brincadeira e comentários que associam sua candidatura ao fato de ser mulher, em vez de considerar sua formação e experiência profissional.
"Não é sobre mim, é sobre as outras mulheres que precisam também dessa voz", afirma. Em vez de concentrar sua atuação em denúncias públicas sobre essas situações, Leatrice diz preferir utilizar a própria candidatura para ampliar a participação feminina na política. "Eu prefiro ser voz das mulheres para levar isso de uma maneira para um debate de igual para igual", conclui.
