
Mesmo com o frio e a chuva que marcaram a manhã deste sábado (12), um grupo de pequenos fotógrafos saiu de casa para experimentar uma nova maneira de olhar para o lugar onde vive.
Teve início, em Laguna, a “Investigação Poética sobre o Território”, oficina de fotografia voltada para crianças de 7 a 10 anos, realizada pelo Centro de Desenvolvimento Sociocultural (CDS) e UDESC Laguna. O primeiro encontro aconteceu no Clube Carnavalesco Xavante e marcou o início de uma experiência que propõe às crianças algo que vai muito além de aprender a fotografar.
A ideia é desacelerar o olhar, observar o cotidiano e descobrir histórias, detalhes e possibilidades escondidas em lugares que, de tão conhecidos, muitas vezes deixam de ser percebidos.
A proposta parte de uma pergunta simples e potente: o que existe no lugar onde vivemos que quase ninguém repara? A partir dela, as crianças são convidadas a investigar o próprio território por meio da fotografia.
Texturas, paisagens, caminhos, pessoas, objetos, pequenos acontecimentos e cenas do cotidiano passam a ser vistos de outra maneira. Fotografar, nesse contexto, também significa perguntar: o que eu vejo? O que quase ninguém vê? O que merece ser registrado? Que histórias existem nesse lugar?
A câmera deixa de ser apenas uma ferramenta para produzir imagens e passa a funcionar como instrumento de descoberta. A criança não é colocada apenas na posição de quem aprende uma técnica, mas também de quem observa, interpreta e produz uma narrativa sobre o espaço que habita.
A oficina é conduzida por Vitória Rodrigues, estudante da UDESC, com o apoio de Melissa, auxiliar da atividade e bolsista do GHAB — Grupo de Estudos da Habitação da UDESC. A presença da equipe aproxima a experiência da universidade e do território, criando uma ponte entre formação, pesquisa, extensão e vivência comunitária.
O primeiro encontro revelou a potência dessa proposta. Mesmo diante do frio e da chuva, as famílias compareceram e as crianças participaram ativamente das atividades, iniciando uma jornada que continuará nos dias 13 e 19 de setembro.
Ao longo da experiência, cada participante também conta com um Caderno do Fotógrafo, criado especialmente para acompanhar o processo e guardar parte das descobertas feitas durante a oficina. Mais do que um material de apoio, o caderno se torna também um registro da experiência e da maneira particular como cada criança percebe o mundo.
Para Preto Lauffer, diretor do Centro de Desenvolvimento Sociocultural, a oficina traduz uma dimensão essencial do trabalho desenvolvido pelo CDS: criar experiências que façam sentido para as pessoas e que possibilitem às crianças ocupar os espaços de aprendizagem não apenas como espectadoras, mas como protagonistas.
“Para mim, essa ação representa muito do que acredito quando penso no CDS: criar experiências que façam sentido para as pessoas e, principalmente, para as crianças. A fotografia aqui é uma ferramenta, mas o que estamos construindo é muito maior: é curiosidade, autonomia, pertencimento e a possibilidade de uma criança olhar para o lugar onde vive e perceber que ele também pode ser contado a partir do seu olhar.”
E foi justamente no final do primeiro encontro que uma resposta das crianças acabou traduzindo, de maneira espontânea, o sentido da experiência.
Ao serem perguntadas sobre o que mais haviam gostado e o que menos haviam gostado na oficina, a resposta foi unânime: “Não teve nada que eu não gostei aqui.”
Para Lauffer, ouvir aquelas palavras foi mais do que uma satisfação com a atividade realizada. Foi uma confirmação sobre o tipo de espaço que o CDS pretende construir.
“Ouvir isso me atravessou de um jeito muito especial e me fez ter ainda mais certeza do que quero construir com o CDS. Quero que esse seja um lugar onde as pessoas possam chegar e encontrar possibilidades, onde crianças possam experimentar, criar, aprender e, principalmente, sentir que aquele espaço também pertence a elas. É por isso que fazemos o que fazemos.”
A “Investigação Poética sobre o Território” nasce em Laguna, mas a proposta não pretende necessariamente ficar restrita a um único espaço. A intenção é que a experiência possa circular por outras comunidades, utilizando a fotografia como ferramenta de educação, percepção, expressão e valorização dos territórios.
A iniciativa também dialoga com a perspectiva de atuação do CDS, que busca articular cultura, educação, formação e desenvolvimento sociocultural a partir das demandas e potencialidades das comunidades.
A realização é do Centro de Desenvolvimento Sociocultural (CDS) e da UDESC Laguna, com apoio do GHAB — Grupo de Estudos da Habitação da UDESC e do Instituto Jerônimo Coelho.
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O segundo encontro acontece neste domingo (13), novamente das 9h às 12h, no Clube Carnavalesco Xavante. No dia 19 de setembro, será realizado o último encontro, com o encerramento da experiência e a entrega dos certificados às crianças participantes.
Ao final da jornada, cada criança levará consigo suas fotografias, seus registros e o próprio Caderno do Fotógrafo.
Mas talvez leve também algo menos visível e, justamente por isso, mais importante: a descoberta de que olhar é uma forma de conhecer.
E quando esse novo olhar nasce na infância, aquilo que parecia apenas uma rua, uma casa, uma árvore, uma parede, uma pessoa ou um caminho pode se transformar em história.
