
Um relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) aponta que integrantes de um grupo ligado ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teriam conseguido consultar procedimentos sigilosos do Ministério Público Federal (MPF) por meio de credenciais funcionais de servidores do órgão.
Os documentos foram tornados públicos na sexta-feira (11), por determinação do ministro André Mendonça. Segundo a investigação, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, fazia a intermediação entre Vorcaro e o grupo chamado “A Turma”, apontado pela PF como uma estrutura utilizada para levantar informações, acompanhar investigações e intimidar pessoas de interesse do grupo.
Em mensagens trocadas com Vorcaro, Sicário afirmou, em junho de 2024, que tinha “acesso total e ilimitado” aos sistemas do MPF. Na ocasião, ele encaminhou arquivos relacionados a procedimentos sigilosos que envolviam o empresário e chegou a orientá-lo a apagar uma das mensagens posteriormente.
A PF identificou ainda consultas realizadas nos sistemas do MPF utilizando logins funcionais de servidores. Em julho de 2025, por exemplo, uma busca pelos termos “BRB AND MASTER” foi compartilhada com Vorcaro. Segundo os investigadores, também houve uma consulta pelo CPF do ex-banqueiro que localizou 15 procedimentos, sendo 11 deles sigilosos.
O relatório ressalta, contudo, que não há confirmação de que os servidores titulares das credenciais tenham participado conscientemente dos acessos. A PF considera como possibilidades o compartilhamento indevido das senhas, o uso das contas sem conhecimento dos funcionários ou até mesmo eventual invasão dos sistemas.
Grupo também teria investigado helicóptero
Outro episódio descrito no relatório envolve um helicóptero que sobrevoou a residência de Vorcaro, na Bahia, por cerca de 40 minutos, em janeiro de 2025. O empresário enviou uma imagem da aeronave a Sicário e pediu que o grupo levantasse informações sobre o voo.
A investigação aponta que integrantes da “A Turma” buscaram identificar quem havia contratado o helicóptero e quem estava a bordo. Sicário também encaminhou a Vorcaro um documento com identificação e brasão do MPF, classificado como “URGENTE/SIGILOSO”, solicitando dados sobre o contratante, itinerários, horários e passageiros.
Segundo a PF, o documento não apresentava assinatura digital ou manuscrita, apesar de indicar o nome de uma servidora no campo destinado à assinatura. Ainda assim, a empresa de táxi aéreo teria respondido à solicitação, e as informações foram posteriormente encaminhadas a Vorcaro.
Relatórios foram tornados públicos por Mendonça
A investigação também encontrou no celular de Daniel Vorcaro a íntegra de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) sigiloso que havia sido encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Na conclusão, a Polícia Federal afirma que o grupo relacionado ao ex-banqueiro acessou de maneira recorrente procedimentos sigilosos em andamento no MPF e em outros órgãos, utilizando credenciais funcionais de terceiros e realizando consultas e extrações de documentos dos sistemas internos.
André Mendonça determinou a retirada do sigilo de 14 procedimentos, além do processo principal que deu origem às demais investigações. A decisão ocorreu a pedido do presidente do STF, Edson Fachin.
