
FALTA IDENTIDADE
Acho louvável as campanhas por votos na região da Amurel. É importante termos representatividade na ALESC e na Câmara Federal. Mas mais uma eleição passa e ninguém aprende duas coisas. A primeira, é necessário costurar melhores acordos entre partidos para que haja um apoio mútuo, mesmo que as legendas sejam diferentes, e para que se construa uma candidatura forte. Aí entra a segunda coisa: faltam candidaturas sólidas que causem identificação imediata do eleitor da Amurel. Falta identidade. Ninguém aguenta mais fulano puxando beltrano e indicando cicrano. Fora os temas que são dispersos. Por que não pensar em quatro ou cinco pautas concretas para os primeiros meses de mandato e apresentar isso ao eleitor? Precisamos rever o modo como se faz campanha. Ou vamos sempre ficar mendigando espaços nos legislativos.
CADA DIA UM PEDAÇO
O baixíssimo nível dos debates e campanhas mostra que chegamos a um triste nível nas instituições; em absolutamente todas elas. E parece que não há para onde correr. Cada dia juntamos um escombro de uma igreja evangélica, de um banco ou da suprema corte em algum lugar por aí. Aqui no Estado, o grande destaque do debate dos governadores, por exemplo, foi Jorginho Mello relembrando um episódio em que João Rodrigues assistia a um vídeo pornográfico, em 2015, na Câmara dos deputados. Rodrigues alega que recebeu o conteúdo num grupo e abriu para verificar do que se tratava antes de apagá-la. Aí fica eu e você, dois palhaços, assistindo um mix de nada com coisa nenhuma. Ao menos fosse como o debate do RJ. Deprimente, mas entretenimento puro.
GAROTINHO, O SHOWMAN
Após tentar pular da maca que o levava para o presídio e fazer greve de fome na cadeia, o cara conseguiu voltar candidato e ser o melhor do debate. Melhor como? Fica a critério… Com uma passada que lembrava o apresentador Wagner Montes, Anthony Garotinho (Republicanos) arrancou risadas no debate para o governo do Estado no Rio de Janeiro. A verdade é que se queremos debater ideias, precisamos recorrer ao Banquete de Platão. Debate político é espetáculo purinho. Garotinho citou a chamada lista de Bacellar, dizendo que havia até gente do próprio partido entre os nomes. Quando atacaram sua idade? “O que envelhecem são as ideias. Eu sou jovem, eu sou um garotinho”. Ainda teve um momento em que caminhou junto de Eduardo Paes em direção a uma câmera e também citou o programa ‘Leitinho Feliz’. Preso cinco vezes, Garotinho teve a candidatura indeferida por unanimidade pelo TRE-RJ, mas conseguiu no TSE liminar para continuar na disputa enquanto o caso não é decidido (!).
NEM A SANTA ESCAPA
Uma jornalista da GloboNews noticiou um movimento na Igreja Católica em reação a uma suposta mobilização de evangélicos em torno de um projeto para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A partir daí, parte da esquerda trouxe à tona um projeto de lei de 2007, do então deputado Victório Galli, arquivado em 2008, que tinha como objetivo trocar o título de "padroeira do Brasil" por "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". A partir daí, parte da esquerda associou o projeto a Flávio Bolsonaro, já que Galli foi assessor especial de Jair Bolsonaro na Presidência. O humorista Antonio Tabet publicou: "A família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!" A campanha de Flávio foi ao TSE. Mendonça mandou derrubar, Dino mandou deixar. Aquela briguinha política no judiciário.
NO PRÓPRIO TRUQUE
Houve um projeto? Sim, logo, afirmar que houve um projeto não é fake news. Fake news foi o que parte da esquerda fez ao dizer que Flávio Bolsonaro era autor do projeto, ou que pretendia fazer isso num eventual governo. O autor do projeto é próximo dos Bolsonaro? Sim. Logo, não é fake news dizer que “Flávio Bolsonaro é próximo de autor de projeto que tiraria título de padroeira de Nossa Senhora”. Ou fazer o que Tabet fez, por mais sem graça que seja. Flávio vestiu a carapuça de miliciano ao pedir a retirada do post. Só faria sentido a retirada do post (e de outros mil que falavam sobre Nossa Senhora) se Tabet citasse a família Bolsonaro nominalmente. A verdade é que a direita sempre foi muito boa em fazer isso e fica furiosa quando fazem isso com ela. Comentar um fato do passado e deixar no ar insinuações que não tragam prejuízo judicial… Eu acho de uma imbecilidade atroz, venha da esquerda, venha da direita.
FADADOS AO FRACASSO
Uns confiam em carros e outros em cavalos, e nós o que vamos fazer? Não sei se você já reparou, mas o capitalismo contemporâneo dissolveu todas as amarras sociais, laços comunitários e estabilidades. Com o esgotamento de recursos naturais e a impossibilidade de manter um crescimento infinito neste mundo de fronteiras finitas, a gente acaba presenciando a falência de um modelo que prometia progresso infinito e entregou solidão e um futuro inviável. Órfãs de sentido, as pessoas então começam a flertar com a ruptura total e o autoritarismo ou buscam refúgio num conservadorismo. Tudo isso tem a ver com esperança.
A VIDA ALÉM DA POLÍTICA
Se a sua esperança é a reeleição de Lula ou a vitória de Flávio Bolsonaro neste domingo, ainda há tempo para você abandonar esse caminho triste. Eles não são o Messias. Nem satanás. São Baal e Moloque. Ídolos que o coração de um povo ansioso por salvação criou; povo este que coloca a esperança naquilo que, visivelmente, acabará. No nosso caso, essas lideranças erráticas. Não sei se você sabe mas, mandatos acabam. Nações podem sumir do mapa num fim de semana. Ainda há tempo de abandonar esse estúpido caminho de “esperança política”. Vote, sim, consciente. Você e eu sabemos que há menos piores e piores. Mas não deixe seu coração se entupir com tudo isso. A vida envolve sermos políticos, participar da cidade; mas ela não é só isso. Tem gente que acha que sim. Que baliza a vida por verde e amarelo ou vermelho. Só que a vida, nem de longe, é apenas isso. Triste de quem acha que é.
