
Há medos que são irracionais. Eu, por exemplo, tenho medo de morrer por engolfamento num silo de grãos. Sabe quando um trabalhador é coberto por toneladas de grãos que, armazenados, parecem areia movediça? Então, eu morro de medo. Acontece que eu, do alto dos meus vinte e oito anos, não cogito entrar num silo de grãos nem sob ameaça. Logo, o medo não tem muita base. Mas quando você deixa seu filho na creche ou na escola, não controla o que acontece lá. Então há uma certa razão em temer.
Assista:
Nas últimas semanas, fatos que aconteceram em Santa Catarina e no Paraná mexeram com o coração dos pais que precisam deixar seus filhos pequenos em creches. Os casos repercutiram nacionalmente e aconteceram em Braço do Norte, Florianópolis e Curitiba. A pergunta que todo mundo se faz é: como é a segurança das creches de Tubarão? Para responder isso, conversamos com a secretária de Educação de Tubarão Marlise Nunes e visitamos o CEI Theresa da Silva Rosendo, no bairro Oficinas.
AS OCORRÊNCIAS
O primeiro dos casos que repercutiu nacionalmente aconteceu na região: um bebê de um ano e seis meses fugiu de uma creche municipal em Braço do Norte no dia vinte e cinco de setembro e caminhou sozinho numa rua íngreme por cerca de 50 metros até o local de trabalho da mãe. A criança saiu da instituição sem ser notada pelos funcionários porque o portão estava aberto devido a obras de reforma no local. A coordenadora da creche foi exonerada do cargo pela Prefeitura de Braço do Norte e o profissional terceirizado responsável pela guarita e pelo controle de acesso também foi afastado de suas atividades na unidade.
Onze dias depois, em Florianópolis, uma bebê de 3 anos saiu sozinha de uma creche e foi vista caminhando na Avenida Mauro Ramos, uma das mais movimentadas do Centro de Florianópolis. A menina foi encontrada por uma vizinha da família, que relatou o caso à mãe e levou a criança de volta à unidade. A Polícia Civil abriu inquérito e a Prefeitura de Florianópolis instaurou um processo administrativo para apurar as responsabilidades.
Na última sexta-feira, um homem armado com uma faca invadiu um Centro Municipal de Educação Infantil em Curitiba e fez 13 crianças reféns dentro de uma sala. Ele foi morto depois de mais de duas horas de tentativas de negociação.
DO PORTÃO PARA DENTRO
“Todos os portões precisam estar fechados. Essa é a orientação que a Fundação dá. Os vigilantes têm os horários de entrada e saída, e a gestão escolar também faz esse monitoramento e acolhimento na chegada dos alunos, bem como nas saídas”, explica a secretária de Educação, Marlise Nunes, que visitou junto com o HC o CEI Theresa da Silva Rosendo, no bairro Oficinas.
Os vigilantes patrimoniais são profissionais responsáveis pela proteção das instalações e pelo controle de acesso, observando a movimentação e possíveis situações de risco. Atualmente, Tubarão tem aproximadamente dez profissionais desse tipo para atender às 44 unidades escolares do município. “Hoje, a Kronos fornece esse trabalho para toda a nossa rede, bem como as câmeras de vigilância, que também estão em todas as unidades. A gente entende que esse número de vigilantes é insuficiente, sim, por isso estamos abrindo um processo licitatório”, afirma.
A secretária também relaciona os episódios recentes envolvendo crianças que deixaram creches sem serem percebidas à necessidade de reforçar os procedimentos de segurança. Segundo ela, o fechamento dos portões e o controle da movimentação são temas abordados nas formações continuadas oferecidas aos profissionais da rede, que reúne mais de 1.100 trabalhadores. “Esses fatos aconteceram, muitas vezes, por imprudências relacionadas aos portões abertos. Isso é trabalhado na formação continuada, com toda a orientação aos profissionais envolvidos na rede”, diz.
OLHOS NO PORTÃO
A segurança das crianças na entrada e na saída envolve uma série de procedimentos adotados pela equipe do CEI Theresa da Silva Rosendo. Segundo a coordenadora Jacyra Moreira Martins Machado, um dos principais cuidados é garantir que os alunos sejam entregues exclusivamente às pessoas autorizadas pelos responsáveis.
Para isso, a unidade mantém fichas preenchidas pelas famílias com os nomes das pessoas autorizadas a buscar as crianças. Os documentos ficam disponíveis nas salas e na secretaria para consulta dos profissionais. “Quando o responsável vem buscar e a gente não conhece, ele não leva a criança, porque não está autorizado. Só é liberado para as pessoas que a família autorizou na escola. Se não está autorizado a levar, não leva”, explica Jacyra.
Outro procedimento é manter os portões trancados com cadeado durante a rotina escolar. O vigilante controla a entrada e a saída de pessoas, especialmente nos horários de maior movimento, e o posto de acesso não fica desassistido. Quando precisa atender o portão lateral, utilizado para entregas de alimentos e serviços como a troca de botijões de gás, ele fecha o acesso principal e comunica a secretaria, onde outro profissional auxilia no monitoramento.
“O portão da nossa escola não fica aberto, ele permanece no cadeado. A gente tem o vigilante, que auxilia nessa segurança, porque só entra com a autorização dele. Em nenhum momento o posto do portão fica sem ninguém”, afirma a coordenadora.
O PATRIMÔNIO MAIS VALIOSO
Há três anos trabalhando como vigilante no CEI Theresa da Silva Rosendo, João Gabriel Vargas conhece de perto os cuidados necessários para manter a segurança das mais de 200 crianças. Antes de atuar na creche, ele trabalhava no Farol Shopping, ambiente em que a observação do comportamento das pessoas também fazia parte da rotina, mas de maneira diferente.
Na unidade escolar, a atenção se concentra especialmente na entrada e na saída dos alunos, momentos em que o fluxo de pessoas aumenta e as crianças podem se movimentar em diferentes direções. “Como tem muita criança no pátio, correndo e brincando, o portão é sempre no cadeado. É um modo de prevenir algum tipo de acidente ou uma criança sair”, explica.
O trabalho também envolve orientar os pais e responsáveis. Segundo ele, mesmo durante a chegada e a saída das famílias, é importante manter a atenção para evitar que uma criança passe pelo portão sem ser percebida, especialmente quando os adultos param para conversar com os professores. “A gente sempre fica no portão para prevenir que a criança saia para fora. A gente mantém a segurança das crianças, mas também orienta os pais a ficarem atentos”, afirma.
PENSANDO NO FUTURO
Marlise afirma que a Prefeitura tem estudado novas formas de melhorar a segurança nas unidades. “A ideia é expandir o número de vigilantes patrimoniais, bem como a possibilidade de termos catracas nas unidades escolares, com leitura facial dos nossos alunos. Também estamos estudando os totens de 360 graus, interligados com a polícia”, explica a secretária.
