
Os orelhões vão desaparecer do Brasil até 2028 e antes que isso aconteça, eu queria encontrar um ainda em funcionamento. Antes de sair de casa, consultei o portal da Anatel e o mapa indicava apenas dois registros na região da Amurel: um em Parobé e outro em Ribeirão Pequeno, distrito de Laguna. O de Parobé aparecia como “em manutenção” — morto, mas ainda não retirado do sistema. Restava Ribeirão Pequeno, onde supostamente estaria o último orelhão em funcionamento na Amurel.
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O distrito, situado a onze quilômetros da BR-101 e a vinte e dois do centro histórico de Laguna, margeando a Lagoa Santo Antônio dos Anjos. Sua fundação remonta ao século XVIII, quando açorianos desbravaram a região costeira e formaram uma comunidade pesqueira e agrícola.
Depois de costear a região, cheguei ao local. A carcaça verde e branca, já desbotada pelo tempo, permanecia de pé como uma relíquia que ninguém se deu ao trabalho de retirar. Dentro dela, pendurado onde deveria estar o velho monofone pesado havia um telefone da Intelbras.
Um aparelho doméstico simples e ordinário, daqueles comprados para instalar na parede da cozinha. Ali estava, preso por um suporte de plástico barato, improvisado dentro de uma cabine concebida para uma outra época e mundo. Não era exatamente um orelhão. Bom, tinha a estrutura de ovo e tudo o mais. Eu estava diante da tentativa de manter vivo, por remendo, um objeto cuja função já havia terminado.
Em Santa Catarina, os orelhões estão desaparecendo sem alarde. Restam hoje 95 aparelhos no estado, entre ativos e “em manutenção”, espalhados por 21 municípios. Destes, 65 ainda funcionam oficialmente. Os demais sobrevivem em cadastros burocráticos, embora nem sempre sobrevivam no mundo real.
O encolhimento foi rápido. Em Florianópolis, havia mais de 500 telefones públicos em 2020. Um ano depois, eram 300. Em 2022, 261. Em fevereiro de 2025, sobravam 12, distribuídos em pontos esparsos da Ilha de Santa Catarina.
A decadência é mais visível porque Santa Catarina já tentou fazer do orelhão um ornamento. Em 1996, a antiga Telesc instalou nas praias de Florianópolis telefones públicos em formato de tubarão, concha e guarda-sol — uma solução que misturava utilidade pública e decoração temática. O que resta hoje é menos fotogênico: em alguns lugares, o monofone original foi substituído por aparelhos domésticos adaptados, presos à estrutura de fibra de vidro como quem faz gambiarra num objeto que já deveria ter sido aposentado.
O primeiro orelhão do Brasil foi inaugurado em 20 de janeiro de 1972, na Rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro; o aparelho foi desenhado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Apesar do apelido, seu formato não imitava uma orelha, mas um ovo.
Nas décadas seguintes, ele se espalhou pelo país até atingir o auge de 1,5 milhão de unidades. Durante anos, foi parte da coreografia urbana brasileira. Servia para avisar atraso, pedir carona, comunicar morte, marcar encontro, terminar namoro, pedir socorro e fazer trote. Os contratos de concessão que obrigavam as operadoras a manter a rede expiraram em dezembro de 2025. Com a transição do setor para o regime de autorização, a obrigação desapareceu junto com a justificativa econômica para preservar a estrutura.
A previsão é que o país mantenha cerca de 9 mil aparelhos até 2028, restritos a localidades sem cobertura de telefonia móvel. Os números dão a dimensão do colapso: no início da década, o Brasil ainda tinha mais de 202 mil orelhões. No fim de 2024, restavam 84,9 mil. Em dezembro de 2025, o total havia caído para 38,4 mil — uma redução de 81% em cinco anos.
Segundo a Anatel, as operadoras continuam obrigadas a oferecer serviço de voz, por “quaisquer tecnologias”, em localidades onde sejam a única prestadora disponível até o fim de 2028. “Quaisquer tecnologias” é uma expressão suficientemente ampla para abarcar quase tudo — inclusive um telefone de cozinha parafusado dentro de uma cabine de orelhão.
De acordo com a Vivo, o uso dos aparelhos caiu 93% nos últimos cinco anos. Entre 2018 e 2025, as operadoras gastaram R$ 1,69 bilhão na manutenção da rede. Era muito dinheiro para sustentar uma infraestrutura que quase ninguém mais usava e que boa parte da população já tratava como peça de mobiliário urbano ou alvo ocasional de vandalismo.
