
Você sabia que, há menos de 100 anos, médicos literalmente perfuravam o cérebro de pacientes para tentar tratar doenças mentais? O procedimento era chamado de lobotomia e se tornou um dos capítulos mais controversos da história da medicina moderna.
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A técnica surgiu oficialmente em 1935, criada pelo neurologista português António Egas Moniz, que desenvolveu a chamada leucotomia pré-frontal. O método consistia em romper conexões entre o lobo frontal e outras regiões do cérebro na tentativa de reduzir sintomas psiquiátricos graves.
Nos primeiros procedimentos, eram feitos furos no crânio para que álcool ou instrumentos cirúrgicos destruíssem parte das conexões cerebrais. Poucos anos depois, a técnica evoluiu para a chamada “lobotomia transorbital”, popularizada pelo médico americano Walter Jackson Freeman II. Nesse método, um instrumento semelhante a um picador de gelo era inserido acima do olho do paciente, atravessando o osso da órbita até atingir o cérebro.
A ideia era “acalmar” pacientes com transtornos mentais considerados graves ou incontroláveis na época, como esquizofrenia, depressão severa, transtorno bipolar e comportamentos agressivos. Sem medicamentos psiquiátricos eficazes disponíveis naquele período, a lobotomia passou a ser vista como uma solução revolucionária.
A prática se popularizou principalmente entre as décadas de 1940 e 1950, especialmente nos Estados Unidos. Segundo estimativas citadas por diferentes publicações médicas e históricas, cerca de 50 mil pessoas foram submetidas à lobotomia no país.
O reconhecimento à técnica foi tão grande que, em 1949, António Egas Moniz recebeu o Prêmio Nobel de Medicina pelo que o comitê chamou de “descoberta do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses”.
Com o passar do tempo, porém, os efeitos devastadores do procedimento começaram a ficar evidentes. Muitos pacientes apresentavam apatia profunda, perda de emoções, dificuldades motoras, danos cognitivos, alterações severas de personalidade e incapacidade de viver de forma independente. Em alguns casos, o procedimento levava à morte.
A partir da década de 1950, com o surgimento de medicamentos antipsicóticos e antidepressivos mais eficazes, a lobotomia começou a cair em desuso. Ainda assim, procedimentos derivados continuaram sendo realizados em alguns países durante as décadas de 1960 e até 1970, embora cada vez mais raros e sob forte crítica da comunidade médica.
Hoje, a lobotomia é amplamente lembrada como um dos episódios mais sombrios da psiquiatria e da medicina do século XX.
