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19/09/2020 14h30

Como a narrativa do medo reforça as desigualdades sociais no Brasil

Cerca de 25% da população brasileira ainda vive com menos de R$ 420 por mês
Como a narrativa do medo reforça as desigualdades sociais no Brasil
As desigualdades sociais no Brasil são fissuras profundas. De acordo com dados da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), divulgados pelo IBGE no final de 2019, cerca de 25% da população brasileira ainda vive com menos de R$ 420 por mês. Essa é a cara de um país que está longe de alcançar o objetivo nº 10 de desenvolvimento sustentável da ONU: a redução das desigualdades.


A jornalista Elaine Tavares atua no campo da comunicação popular e comunitária. Ela faz parte do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA) da UFSC e é autora de diversos livros, entre eles Jornalismo Nas Margens – Uma reflexão sobre a comunicação em comunidades empobrecidas (2004). Nesta entrevista, Elaine fala, entre outros tópicos, sobre a pedagogia do medo da mídia em relação à pobreza.


Você escreveu Jornalismo nas Margens em 2004. Depois de 16 anos, o que mudou na cobertura jornalística em relação às questões sociais?

Infelizmente ele continua atualíssimo. O Jornal Notícias do Dia, por exemplo, fez recentemente um caderno de 32 páginas [sobre a favelização em Florianópolis] dizendo que a cidade está ameaçada. Pelo amor de Deus, 32 páginas! Como se não fosse essa gente toda que faz a cidade caminhar. É um negócio chocante, o tempo passa e as coisas permanecem. Não se vê a pobreza na televisão e quando ela aparece é criminalizada. O negro é o bandido, o pobre é o bandido, é o feio, o sujo, o malvado, nada muda. E não é por acaso.  


Como essa narrativa da imprensa sobre as favelas ajuda a reforçar as desigualdades?

A mídia faz o que eu chamo de pedagogia do medo. Você tem que desenvolver nas pessoas a ideia de que elas precisam viver com medo. Mas viver com medo do quê? Viver com medo do preto, do pobre, do que está na comunidade, da favela. Não é interesse da mídia comercial discutir a desigualdade. Pelo contrário. Ela vai sempre dizer que o problema é o pobre. O pobre só aparece de maneira não tão degradada quando ele é vítima. E não quando é vítima do crime, quando ele é vítima dos desastres naturais, enchentes, terremotos, ciclones. Mas fora isso, toda cobertura da pobreza que está seguindo a pedagogia do medo. Para mostrar que aquele ali é o teu inimigo. É o inimigo da classe média.  


Hoje temos diversos veículos independentes inseridos nas redes sociais. Como você acha que esses veículos ajudam a driblar essa pedagogia do medo?

Não ajuda em quase nada. A maioria desses veículos alternativos, comunitários, populares, segmentados ou não, circulam no gueto. Não vão atingir aquela pessoa que é atingida pelo Datena, por exemplo. 97% do território nacional é alcançado pelas televisões. E aí você pega uma Mídia Ninja que, ainda que seja uma mídia nacional, é guetizada. Na verdade, é o que se chama de bolha. A maioria das pessoas que não tem esse interesse na comunicação só segue aquilo que lhe interessa. Por isso as mídias comerciais ainda têm força. De certa maneira elas conseguem abranger uma universalidade que essas mídias alternativas não conseguem. Ah, então não tem que ter? Claro que tem que ter. São mídias de resistência e nós temos que entender o que é resistir.  

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A ONU possui indicadores para que os ODS sejam alcançados até 2030. Vendo a realidade do Brasil hoje, é possível chegar próximo à redução das desigualdades

Não. E se você fizer um estudo do que essas entidades propunham 30 anos atrás é mais ou menos o mesmo. Quando você estuda o capitalismo, vai ver que para um rico, precisam existir 500 pobres. Então tudo o que essas entidades propõem são propostas band-aid. Você coloca aquele band-aidzinho no ferimento, que nem protege direito, mas aparentemente você pensa que está. A desigualdade é da natureza do capital.  


Elaine, quais são as possibilidades para a redução das desigualdades? Qual é o caminho?

O caminho é o da resistência. Nós, como jornalistas, temos que atuar dentro do nosso campo, mas não podemos ficar somente ali. Temos que atuar na grande política também. Eu não quero diminuir a desigualdade, eu quero acabar com ela. O capitalismo te oferece uma diminuição, eu quero que não exista uma pessoa passando fome. Enquanto comprarmos esse discursinho de diminuição da desigualdade, nós estamos tentando humanizar o capitalismo. Então, enquanto uma pessoa no planeta estiver vivendo em situação de fome, de miséria, de sofrimento, de fuga, de guerra, estaremos em luta. Acho que esse é o nosso horizonte. Podemos fazer algo pra diminuir as desigualdades sim, mas temos que caminhar no sentido de exterminá-la.


Texto por Thais Teixeira/ Jornal Laboratório Fato&Versão/Unisul 


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