
Uma prática tradicional do extremo sul de Santa Catarina voltou a ganhar vida após cerca de 20 anos: a pesca cooperativa entre pescadores artesanais e botos-da-lahille, espécie ameaçada de extinção. O reaparecimento dos animais na Barra do Rio Araranguá tem chamado a atenção de pesquisadores e da comunidade local.
Desde setembro de 2024, equipes da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) passaram a monitorar a presença dos botos na região. Até o momento, 11 indivíduos foram identificados, a partir de mais de 100 saídas a campo. O trabalho utiliza registros fotográficos e drones, permitindo a identificação dos animais por marcas únicas na nadadeira dorsal.
Segundo os pesquisadores, relatos da própria comunidade indicam que os primeiros sinais do retorno ocorreram ainda no verão de 2021. Na ocasião, moradores e pescadores observaram botos entrando no rio e interagindo durante a pesca, algo considerado raro após anos sem registros da espécie na área.
A pesca cooperativa ocorre quando os botos cercam os cardumes e indicam o momento ideal para o lançamento das redes. Parte dos peixes escapa e acaba servindo de alimento para os animais, em uma relação de benefício mútuo que atravessa gerações. Pescadores mais antigos relatam que os botos sempre fizeram parte da rotina local e eram tratados como integrantes da própria comunidade.
Uma das hipóteses levantadas para o retorno da espécie é a busca por áreas com menor tráfego de embarcações durante o verão. Os pesquisadores explicam que os animais costumam circular pela zona costeira e podem chegar ao Rio Araranguá após se deslocarem de municípios como Laguna e até de Torres, no Rio Grande do Sul.
Além do monitoramento científico, o projeto conta com a colaboração da população. Moradores, turistas, pescadores e surfistas têm enviado fotos e vídeos sempre que avistam botos na região, contribuindo para a catalogação e o acompanhamento dos animais.
A espécie Tursiops gephyreus, conhecida como boto-da-lahille, foi recentemente reconhecida como distinta e incluída oficialmente na lista de espécies ameaçadas de extinção, o que torna o retorno ao Rio Araranguá ainda mais relevante para a conservação ambiental.
