
Sempre que vou para o trabalho, meu ônibus passa por ali. Um guarda-sol listrado, branco e azul, chama a atenção de quem passa pela calçada da Avenida Marcolino Martins Cabral, no Centro de Tubarão. Por várias e várias vezes anotei no meu caderninho que precisava entrevistar os donos daquele ponto. Mas caderno de jornalista é igual a ninho de gato.
Durante os meses em que passei por ali, duas coisas chamaram atenção: eles sempre estavam ali, por pior que o tempo estivesse ou por mais calor que fizesse. A segunda coisa é que outras barraquinhas vieram e foram, e eles ali continuavam. Um trailer de pastel e caldo de cana e um outro que não me recordo o que vendia. E a feirinha de seu Rony e dona Bárbara permanecia ali.
Você pode assistir o vídeo da entrevista aqui:
De longe, os produtos chamam atenção, é impossível não notá-los. As pitayas num rosa forte e iluminado pelo sol, as bananas amarelinhas e os potes de mel a perder de vista na mesa, que é coberta por uma toalhinha branca de renda. “Posso fazer uma entrevista com vocês?”, foi a primeira coisa que perguntei. Seu Rony me olhou por cima dos óculos, com a desconfiança natural de todo mundo que recebe esse questionamento. “Eu só quero contar um pouquinho da história da feirinha”, emendei antes que ele negasse. Gente, jornalista não morde, não, viu, não precisa ter medo da gente. A gente é humano, alguns pelo menos. “Claro, pode perguntar sim”, seu Rony pareceu menos arisco.
Rony Mazzuco tem sessenta e cinco anos. Há vinte e três ele monta a feirinha na Avenida Marcolino Martins Cabral, no Centro de Tubarão. Atualmente, vive com a companheira Bárbara Matos, de 68 anos, no bairro Fábio Silva. Eles estão há trinta anos morando na cidade, mas são de outros municípios da região: ele é de Urussanga, Bárbara, de Orleans. Eles se conheceram em Tubarão na Linha Cardoso, após ela ficar viúva de um primeiro casamento.
“A vantagem da nossa feira é que é tudo orgânico, tudo natural, vem tudo do morro, Treze de Maio, Caruru, Imaruí… Temos dez fornecedores. O queijo, por exemplo, é da região. O mel é da Serra”, explica. Eles montam a feirinha todos os dias,das 7h até 18h no mesmo local, próximo ao Complexo Provida, em frente a um estacionamento. “Eu comecei com uma caixa de laranjas, de um pé que tinha lá em casa”, conta. “Eu que dei a ideia para ele e ele aceitou”, explica Bárbara.
Segundo seu Rony, há um segredo por trás desse tipo de feira. “Tem que ter um ponto e coisas boas. E onde se encontram essas coisas boas? No campo, no rural, no interior. E é essencial saber trabalhar: comprar, vender, atender bem os clientes. Depois que faz o ponto e as pessoas sabem que estamos aqui, é isso”, detalha Rony. “A vantagem é que eu já tenho experiência também em saber o que as pessoas gostam. Queijo por exemplo, se não for esse ninguém leva”, reitera.
Os dez fornecedores que Seu Rony citou vem de lugares diferentes da região. A pitaya vem de Treze de Maio, o amendoim é de Tubarão mesmo. O mel vem da Serra. “Aipim tem hoje?”, uma cliente passa perguntando. “Só amanhã, trouxeram congelado, aí não dá de vender aqui”, seu Rony responde. A intenção de seu Rony não é ter muitos produtos, mas sim que todos sejam de qualidade. “Não precisa ter um mercado inteiro, mas poucas coisas com qualidade. Todo dia a gente renova o estoque, a gente compra o essencial para o dia e vende aquilo ali. Se sobra alguma coisa a gente faz doação, porque não tem como refrigerar ou guardar para o dia seguinte”, afirma.
“Pode pegar um amendoim ali, tu vai ver que a propaganda é boa”, seu Rony me ofereceu, eu peguei. Um amendoim novíssimo, saboroso; o carro-chefe da feirinha. Seu Rony chega a vender cerca de 200 quilos por semana; certa vez foram 80 quilos num só dia. Os ovos são caipiras, também vem de Treze de Maio. “A gente só coloca coisa boa aqui”, afirmou.
“Seu Rony, se eu quiser montar uma barraquinha concorrente aqui do lado, como que funciona pra eu conseguir o alvará?”, brinquei. Ele levantou o indicador, balançando negativamente o dedo, aproximando-se de mim. “Foi boa essa pergunta aí, porque já colocaram trailer, tentaram vender outras coisas… Em 2017, deram alvará para algumas pessoas, eu fui uma delas. Muito por conta de eu estar aqui há muitos anos. Tem o alvará e a documentação necessária para eu estar aqui, não é qualquer um que pode só chegar e começar a vender, não… Se eu não tivesse autorização eu não estava aqui”, defendeu seu Rony.
Faça chuva ou sol, seu Rony disse que está ali, muito pelo que pensa sobre a importância do ponto e da constância. “Ninguém faz feira todo dia, mas quando fizer, tem que ter certeza que eu vou estar aqui. É assim que a gente vai sendo conhecido”, explica. Nessas e outras, ele e Bárbara são surpreendidos com um temporal como o de terça-feira (24), que alagou ruas da cidade e fez o casal se abrigar no estacionamento. “A gente guardou o que não pode molhar e depois esperou a chuva passar ali dentro”, explicou Bárbara. “E as frutas ali, não tem problema?”, perguntei. Dona Bárbara guardou o celular e me respondeu. “Não, elas até gostam!”
